Aves de Rapina

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Aves de Rapina

Mensagem  Daniel T em Ter Nov 29, 2011 5:32 am

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Harpia no Vale do Rio Doce

Mensagem  reptilesporosus em Qui Set 20, 2012 12:07 pm

Registro recente de harpia, Harpia harpyja (Linnaeus) (Aves, Accipitridae), na Mata Atlântica da Reserva Natural Vale do Rio Doce, Linhares, Espírito Santo e implicações para a conservação regional da espécie.

AUTOR(ES)
Srbek-Araujo,Ana C.
FONTE
Revista Brasileira de Zoologia
RESUMO
A presente comunicação reporta o registro de um macho adulto de harpia, Harpia harpyja (Linnaeus, 1758), na Reserva Natural da Vale do Rio Doce (RNVRD), região norte do Espírito Santo, em agosto de 2005. A análise deste e de registros históricos da espécie nesta reserva indica a presença de uma população residente na região compreendida pela RNVRD e pela Reserva Biológica de Sooretama. Estas duas reservas, contíguas entre si, compreendem cerca de 46250 ha de Floresta Atlântica de baixada (Mata de Tabuleiro), na sua maior parte bem conservada. Além da grande extensão de floresta, a rica e densa fauna de mamíferos presente nestas reservas contribuem para a permanência das harpias na região.

Texto completo da Revista Brasileira de Zoologia




A harpia ou gavião-real, Harpia harpyja (Linnaeus, 1758), é considerada a maior ave de rapina das Américas, sendo uma das maiores aves viventes do mundo (SICK 1997). A espécie ocorre do México à Bolívia e Argentina, estando presente em grande parte do Brasil (SICK 1997). A harpia tem se tornado rara na porção sudeste/sul do país (ALBUQUERQUE 1995, GALETTI et al. 1997), sendo mais facilmente encontrada na região Amazônica (SICK 1997). De acordo com a Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, a espécie está inserida na categoria Quase Ameaçada em nível nacional (MACHADO et al. 2005). Entretanto, a situação da espécie na Mata Atlântica é muito mais grave, estando citada em listas vermelhas estaduais do sul e sudeste: "Provavelmente Extinta" no Rio Grande do Sul (MARQUES et al. 2002) e em Minas Gerais (MACHADO et al. 1998); "Criticamente em Perigo" no Paraná (MIKICH & BÉRNILS 2004), São Paulo (PROBIO/SP 1998) e Espírito Santo (IPEMA 2004); e "Em Perigo" no Rio de Janeiro (ALVES et al. 2000).

A presente comunicação reporta o registro visual de harpia na Reserva Natural Vale do Rio Doce (RNVRD), área de Mata Atlântica de Tabuleiro da região norte do Espírito Santo. O registro foi realizado em 24 de agosto de 2005 (12:37 h) a 250/300 m da Estrada Oiticica (estrada não pavimentada, localizada no interior da reserva). O espécime pousou em galho a aproximadamente 20 m de altura, eriçou as penas (corpo e topete) e permaneceu observando o ambiente durante cerca de sete minutos. Registros fotográficos obtidos na ocasião foram enviados a especialista (José Fernando Pacheco) que, de acordo com as características de plumagem do espécime, indicou tratar-se de um macho adulto.

A RNVRD localiza-se a 30 km ao norte do Rio Doce, entre os municípios de Linhares e Jaguaré (19º06'-19º18'S e 39º45'-40º19'W). A reserva está inserida em uma das áreas de extrema importância biológica para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica, estando localizada no Corredor Central da Mata Atlântica (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE 2000). Com aproximadamente 22000 ha de extensão, a RNVRD representa 25% da área de Mata Atlântica Primária remanescente do Espírito Santo e constitui a segunda maior reserva de Mata dos Tabuleiros ou Zona Tabular Costeira (Hiléia Baiana) do Estado. Associada à Reserva Biológica de Sooretama (REBIO Sooretama; 24.250 ha), constitui um bloco contínuo de mata que representa cerca de 50% da área de cobertura original remanescente do estado (OLIVER & SANTOS 1991) e a maior área de preservação ao norte do Rio de Janeiro. A reserva apresenta relevo relativamente plano, com uma seqüência de colinas tabulares, apresentando altitudes entre 28 e 65 m (JESUS & ROLIM 2005). De acordo com a classificação de Köppen, o clima na região é do tipo tropical quente e úmido (Awi), apresentando estação chuvosa no verão e seca no inverno (JESUS & ROLIM 2005). A temperatura média anual é de 23,3ºC, variando entre 14,8 e 34,2ºC (média das mínimas e máximas, respectivamente), com uma precipitação pluviométrica média anual de 1202 mm, caracterizada por uma forte variabilidade entre anos (JESUS & ROLIM 2005). A RNVRD está localizada nos domínios da Floresta Ombrófila Densa, segundo o Mapa de Vegetação do Brasil (IBGE 1993), sendo classificada como Floresta Estacional Perenifólia por JESUS & ROLIM (2005), que representa uma tipologia intermediária entre a primeira e a Floresta Estacional Semidecídua. A rede de drenagens local revela-se dendrítica/dicotômica, sendo formada por um conjunto de córregos tributários do Rio Barra Seca (JESUS & ROLIM 2005). A área do entorno da reserva está constituída principalmente por pastagens, sendo também encontradas áreas destinadas ao cultivo de mamão, café e eucalipto, entre outras culturas, apresentando um contorno não regular (JESUS & ROLIM 2005).

A presença de harpia na RNVRD é conhecida desde a década de 1970 (GALETTI et al. 1997), incluindo a visualização de um ninho da espécie no interior da reserva em 1992 (PACHECO et al. 2003). Outros registros recentes da espécie na Mata Atlântica foram efetuados no sul da Bahia (GALETTI et al. 1997, SILVEIRA et al. 2005), Espírito Santo (GALETTI et al. 1997, PACHECO et al. 2003), Rio de Janeiro (PACHECO et al. 2003), São Paulo (GALETTI et al. 1997) e Santa Catarina (ALBUQUERQUE 1995) (Tab. I).

No Espírito Santo a harpia parece estar em vias de desaparecimento, especialmente na região serrana, ao sul do Rio Doce (SIMON 2000). No município de Santa Teresa, onde são encontradas três unidades de conservação (Reserva Biológica Augusto Ruschi, Estação Biológica de Santa Lúcia e Parque Municipal Natural de São Lourenço), a espécie existiu no passado, constando em estudos realizados por Augusto Ruschi (RUSCHI 1977), com os últimos registros em 1990, de acordo com PACHECO et al. (2003). Em estudo mais recente, WILLIS & ONIKI (2002) consideraram a harpia como espécie ausente no município.

Segundo THIOLLAY (1989), a harpia necessita de grandes áreas de vida, sendo estimados aproximadamente 100 km2 por casal. Para GALETTI et al. (1997), a espécie pode ser considerada rara no estado de São Paulo, e provavelmente também em Santa Catarina e Paraná, devido à perda de hábitat e à baixa densidade local de presas. De acordo com os autores, as reservas do sudeste do Brasil apresentam baixas densidades de presas potenciais da espécie, estando a presença das harpias nestes locais associada a movimentos migratórios sazonais (GALETTI et al. 1997). Por outro lado, os indivíduos presentes no norte do Espírito Santo e sul da Bahia seriam representantes de uma população residente de harpias, tendo em vista que nestas regiões as presas potenciais da espécie revelam-se mais abundantes (GALETTI et al. 1997). De fato, em estudo realizado no norte do Espírito Santo, CHIARELLO (1999, 2000a) registrou altas densidades relativas para várias espécies de mamíferos na RNVRD, incluindo várias presas potenciais da harpia.

GALETTI et al. (1997) destacam ainda que os registros recentes da espécie em São Paulo foram efetuados apenas durante o inverno (julho), sugerindo a ocorrência de movimentos migratórios de espécimes vindos provavelmente de Misiones, na Argentina. De forma semelhante, ALBUQUERQUE (1995) associa os registros de harpia em Santa Catarina ao final do inverno e à ocorrência de frentes frias durante o outono (conhecimento popular), embora não considere a existência de uma população migratória de harpia para a região. Destaca-se também que os registros da espécie no estado do Rio de Janeiro foram obtidos tanto no inverno (junho de 1997) quanto no verão (janeiro de 1980 e dezembro de 1984) (PACHECO et al. 2003), não indicando, até o momento, que a espécie esteja presente no estado apenas sazonalmente.

Os registros de harpia na RNVRD foram efetuados em fevereiro de 1985 por PACHECO et al. (2003); em agosto de 1992 por GALETTI et al. (1997); em vários meses durante o segundo semestre do mesmo ano, em novembro de 2000 e em abril de 2002 por PACHECO et al. (2003); e em agosto de 2005 (presente comunicação); com um registro da espécie na REBIO Sooretama em maio 1996 (PACHECO et al. 2003). Estes dados indicam a ausência de sazonalidade nos registros de harpia no bloco contínuo de mata Sooretama/Linhares, uma vez que os registros encontram-se distribuídos ao longo do ano (estações seca e chuvosa). Adicionalmente, ressalta-se que os dois registros recentes de ninho de harpia foram realizados ao norte do Rio Doce, na RNVRD (norte do Espírito Santo), durante o segundo semestre de 1992 (PACHECO et al. 2003) e na Serra das Lontras (sul da Bahia), em março de 2000 (SILVEIRA et al. 2005).

De acordo com o exposto acima, é muito provável que a região de Linhares/Sooretama abrigue uma das últimas populações residentes da espécie em áreas de Mata Atlântica de baixada (Tabuleiros), visto que este tipo de mata foi um dos mais afetados pelo desmatamento, crescimento de áreas urbanas e atividades agropecuárias. Neste contexto, é plausível que indivíduos em dispersão, provenientes do norte do Espírito Santo, possam atingir eventualmente o extremo sul da Bahia ou, alternativamente, a região serrana do Espírito Santo, onde razoável cobertura florestal ainda persiste (região de Santa Teresa e Santa Maria de Jetibá, especialmente). Entretanto, é pouco provável que a população residente em Linhares/Sooretama visite áreas tão dispersas, separadas por dezenas de quilômetros (entre Linhares e a região serrana) ou mesmo por centenas de quilômetros (entre Linhares e o sul da Bahia) durante atividades rotineiras de forrageio, sendo, portanto, de extrema importância a manutenção desta população para a conservação regional da espécie. Felizmente, o combate à caça ilegal, ao desmatamento e à ocorrência de incêndios têm sido significativamente intensificados na RNVRD e na REBIO Sooretama (R.M. JESUS, comunicação pessoal), representando um grande avanço em relação ao passado recente daquelas reservas (CHIARELLO 2000b). Destaca-se, entretanto, que outras medidas mais específicas, como a estimativa do tamanho populacional e o monitoramento de indivíduos residentes, gerando conhecimento sobre o tamanho da área de vida e da dieta da espécie na região, revelam-se ações recomendadas e necessárias para o melhor conhecimento do real status de conservação da harpia na Mata Atlântica de tabuleiro do norte do Espírito Santo.
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